Ao deparar-se com a realidade de mais de cinco mil casos de violência e abuso sexual em Canoas, a Prefeitura reuniu, nesta sexta-feira (10/11), no V Encontro de Enfrentamento à Violência contra a Criança e o Adolescente, mais de 250 pessoas - dentre elas professores, equipes diretivas de escolas, profissionais da Saúde e da Assistência Social - para refletir sobre as principais causas da violência infantil e a melhor maneira de reduzir este quadro no município. Segundo a especialista na Área de Violência Doméstica e coordenadora do Movimento pelo Fim da Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes/RS, Mariza Alberton, a realidade de Canoas é diferenciada devido à participação e apoio da área da educação. "Temos várias denúncias oriundas das escolas, onde realizamos um trabalho intenso, envolvendo todas as secretarias, o que resulta na compreensão da importância do compartilhamento da informação", destaca a pediatra Ana Rita de Moraes, coordenadora do Serviço de Referência Especializado no Atendimento à Criança e Adolescente Vítima de Violência (Sacav) - promotor do encontro e responsável, há 9 anos, por receber denúncias da população canoense.
Mariza explicou qual o papel do educador na garantia do cumprimento do Estatuto da Criança e Adolescente. "É dever de quem educa conhecer o estatuto e lutar por sua implementação, pois as crianças passam grande parte de suas vidas na escola, o que estreita os laços entre a instituição e a família", explica a especialista, afirmando que, em casos de violência física, fica mais fácil para a escola se mobilizar. Já em situações de violação sexual ou moral, ela afirma que o caso é velado. "O professor precisa de olhos para enxergar o problema e coração sensível para senti-lo", considera a coordenadora. Para ela, o educador deve ser solidário, acolher a denúncia e encaminhá-la ao Conselho Tutelar ou serviço específico - como o Sacav -, além de proteger o aluno. "Professor não é apenas um repassador de conhecimentos, se fosse assim, um computador bastava", declara, esclarecendo que o estatuto prevê que o educador deva informar até mesmo suspeita de violência e sugere que a denúncia seja feita em nome da instituição para ganhar força e preservar o professor.
O meio mais suscetível à violência, segundo Mariza, é o próprio lar. Em ambientes domésticos acontecem muitos casos, na maioria das vezes, omitidos. "Esta situação é conhecida como complô do silêncio. As pessoas compactuam com o crime, o que faz com que denúncias de abuso sexual, por exemplo, nunca cheguem", avalia a especialista, lembrando que resguardar os jovens é obrigação da população, que, muitas vezes, por medo de se envolver, não informam aos órgãos competentes. Mariza informa que a cada 8 horas um adolescente é abusado no Rio Grande do Sul, situação que poderia ser revertida se a comunidade assumisse sua parcela de responsabilidade e procedesse à denúncia, ainda que de forma anônima.
O evento, que contou com o apoio das Secretarias Municipais de Assistência Social e Cidadania, Educação e Cultura, além da Saúde, ocorreu no Salão de Atos do Unilasalle e aproveitou a oportunidade para divulgar a rede de proteção da criança e do adolescente do município. Além da promotora de Justiça do Ministério Público, Andréa Uequed e do juiz de Direito do Juizado da Infância e Juventude de Canoas, Marcelo Mairon Rodrigues, estiveram presentes no encontro, o vice-prefeito e titular da Secretaria da Saúde, Jurandir Maciel, a coordenadora adjunta da 27ª Coordenadoria Regional de Educação, Rose Guindani, e o representante da SMEC, diretor do Departamento de Registros e Estatísticas, Luis Carlos Marques.