Em 1990, ele chegava a São Paulo com o objetivo de exercer o jornalismo e escrever livros. A grande cidade, repleta de sonhos semelhantes, acabou tornando o Terminal Rodoviário do Tietê, um dos mais movimentados do país, a residência do escritor Luiz Ruffato, que durante um mês viveu no local sob olhares curiosos e ruídos intermitentes. Do começo difícil, sobrou a experiência do olhar apurado sobre a realidade de milhares de pessoas, com diversas culturas, que diariamente passam pela maior cidade do Brasil.
Dezenove anos depois, Ruffato é hoje considerado um expoente da literatura nacional e foi convidado especial da 25° Edição da Feira do Livro de Canoas nesta segunda-feira (29), quando proferiu uma palestra sobre a obra "Eles eram muito cavalos", romance sobre o dia a dia da cidade grande. No livro, personagens de classes sociais diferentes figuram em uma história de diversas linguagens. Destaque para a de cunho "operário", como ele mesmo classifica. "Isso não significa que seja uma linguagem chula, pelo contrário, faço questão de que seja uma leitura complicada", pondera ele. Para Ruffato, o processo atual de escrita contemporânea deve ser inverso. "Não é o jornal ou o livro que devem ser escritos de uma maneira diferente. É o público de classe baixa que precisa ter acesso a um vocabulário rico".
Na hora de escrever, ele afirma que se deixa influenciar pelo cotidiano. "É preciso abrir os olhos para os cheiros, as cores, os sons produzidos pela sociedade. São estes os meus fatores de inspiração", revela. Para ele, é preciso ser humilde e aceitar que as ideias são recicladas diariamente, partindo do princípio de que cada experiência traz uma nova concepção sobre a linguagem popular.
Sobre a apreciação de livros no Brasil, o autor acredita que o livro ainda é um universo distante da maioria dos brasileiros. "As livrarias são território proibido para a maioria das pessoas, pois ostentam luxo e requinte. Para estes cidadãos, o livro é objeto de desejo, mas não de consumo, pois não se enquadra na realidade deles", frisa. Por isso, feiras como essa deixam o escritor entusiasmado. "A feira de Canoas é um exemplo de evento onde as pessoas podem tocar nos livros, sentir o cheiro do papel, ter acesso a estas obras, o que deixa a população mais perto deste mundo fantástico de letras", elogia.
Ruffato é um dos mais de 180 autores que já passaram e ainda devem passar pela feira. O evento segue até sábado (4), sempre das 09h às 18h30min.
Cris Weber