Ele é um ícone da literatura gaúcha. E nesta terça-feira (30) se revelou a centenas de jovens que lotaram o auditório Euclides da Cunha, na Praça da Bandeira. Em um bate papo descontraído, o escritor Moacyr Scliar falou sobre a obra "O sertão vai virar mar", uma releitura do livro "Os Sertões", do autor que dá nome ao auditório da feira. Na versão de Moacyr, os jovens são convidados a conhecer os sertanejos do Brasil, desmistificando a ideia de que se trata de um povo ignorante e atrasado. "O próprio Euclides se deu conta, com o tempo, de que os sertanejos não eram burros. Eles podem não se virar bem na cidade, mas ninguém lida melhor com o campo do que eles. É preciso quebrar preconceitos", frisou.
Alunos de diversas escolas aproveitaram a presença do autor para questioná-lo sobre a segunda profissão que exerce: a de médico sanitarista. O escritor explicou aos adolescentes que nenhum exercício profissional cabe mais à literatura que o da medicina. "Quando as pessoas sentem dor, se mostram como verdadeiramente são. É nesse momento que conseguimos ver a essência do mundo que nos cerca", revelou ele, que afirma ter conhecido a miséria através da profissão. "Atendi pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social e conheci diversas realidades, o que me trouxe uma visão muito rica desse universo".
A pobreza presenciada lembrou a própria infância. O autor voltou no tempo, na época em que ainda era uma criança que ainda almejava escrever, moradora do bairro Bom Fim, da Capital. O pai, de acordo com ele, sabia ler e escrever, era um homem educado e inteligente, mas incapaz de ler um só livro. Foi a mãe que despertou ele para o mundo das letras. "Minha mãe era professora e fazia questão de comprar livros para mim. Até comida poderia estar em falta nas prateleiras, mas livros, jamais". E quando a primeira obra foi escrita, lançado por um editor amigo de Scliar, a obra foi um sucesso, fruto de um "empurrãzinho" dos pais. "Eles praticamente obrigaram os vizinhos a comprar o livro", brincou ele, arrancando gargalhadas dos adolescentes.
Por fim, o autor falou sobre a relação da internet com o tempo destinado à leitura. "Este será um espaço amplo para explorar a literatura. Ainda que na minha opinião o livro jamais perca seu valor, a internet está em pleno crescimento e será um meio de difundir os mais variados gêneros literários", avaliou ele. Após a palestra, Scliar autografou alguns livros para o satisfeito público, que conheceu um pouco mais sobre o filho de imigrantes judeus que sonhava ser escritor e se transformou em uma referência do Rio Grande do Sul.
Cris Weber