Até um mês atrás, quando a servente Ana Jurema de Souza se deparava com um jornal, um sentimento de vergonha e curiosidade permeava seus pensamentos. Aos 52 anos, sem saber ler e escrever, ela tinha receio de perguntar o que estava escrito em placas de ruas ou nas que estão afixadas na Secretaria de Serviços Urbanos de Canoas. Foi quando Ana, mais conhecida como "Ju", se deparou com Fernanda Pfeil, pedagoga e gerentes de projetos da pasta. Quando notou que a servente era praticamente analfabeta, Fernanda não perdeu tempo: comprou um kit de material escolar completo e passou a alfabetizar a funcionária. "Fui cativando ela aos poucos, conversando sobre as principais dúvidas, incentivando-a a ir à escola. Como ela não poderia freqüentar o EJA (Ensino a jovens e adultos), optamos por usar o horário de intervalo dela", afirma.
E foi assim que começou um trabalho de estudos intensivo, que aos poucos vai mudando a realidade de Ana. O refeitório, até então utilizado apenas para lanches, acabou se tornando uma sala de aula. Durante 30 minutos diários, ela aprende as sílabas básicas e compreende um mundo letrado que até então parecia distante. "Eu me sinto muito bem hoje, as pessoas aqui me ajudam, todos participam da minha aula", revela, se referindo a dicas dos colegas. Companheiros de trabalho que podem ser os próximos alunos da sala improvisada. "Quero que eles aprendam também, para que possamos trocar ideias, já que hoje sinto minha mente mais aberta". Os motivos para esta sede de conhecimento são muitos, mas Ana destaca dois deles. "Quero ler a Bíblia e poder dirigir, pois um analfabeto não sabe ler placas de trânsito", lembra.
Colega e motorista da secretaria, Marcelo Andrade se emociona ao ver a troca de conhecimentos entre professora e aluna. "Quando vimos que ela via figuras e a partir delas sondava o que estava escrito, procuramos esta alternativa. Ela não sabia 'bater' o cartão ponto, pois não discernia o nome dela entre as colegas". O Secretário Márcio Ferreira, titular da pasta, afirma que este é apenas o primeiro passo da responsabilidade social que começou com o caso da servente. "A ideia é ampliar o ensino em matemática e outras disciplinas, despertando esta vontade de conhecimento nos nossos servidores", destaca Ferreira, afirmando que em breve uma Biblioteca deve ser instalada no local, para que a leitura seja um hábito na secretaria.
Cris Weber