Uma tarde para filosofar em um diálogo com o intelectual argentino Martín Kohan. Na última sexta-feira, 31 de julho, um público de aproximadamente 40 pessoas participou de conversa com o crítico literário sobre a obra de Jorge Luis Borges. O escritor passou por Canoas, antes de embarcar de volta a Buenos Aires, depois de uma semana de atividade no 4º Festival de Inverno, em Porto Alegre.
O secretário municipal de Cultura, Jéferson Assumção mediou a conversa e provocou o visitante sobre o sujeito na contemporaneidade. De acordo com Assumção, o acúmulo de memórias externas originam toda cultura e, hoje, há um excesso de informações devido à facilidade de acesso e às novas tecnologias. "Conheci um autor paranaense, Cristóvão Tezza, que dizia que é mais difícil esquecer do que lembrar. O excesso causa uma memória falsa, onde não fazemos a distinção de lembrar só o importante, que seria o exercício do pensamento", explicou.
Assumção fez ainda uma analogia de mundo equiprovável, onde habitam as gerações pós-televisão. "É uma geração disléxica com discalculia, ou seja, não hierarquizam os pensamentos. Kohan respondeu complementando que os valores são os da Economia. "Há uma promessa de democracia onde a sociedade se desenvolve cada vez mais desigual e inculta", falou o argentino sobre a denominação que deu ao século 21 como "época perversa".
Sobre a escrita de Borges, Kohan lembrou a angústia de autores diante da constatação de que tudo o que poderia ser escrito, já foi escrito por Borges. O público de escritores presentes reagiu com humor, brincando com uma possível aposentadoria. O clima ficou ainda mais descontraído com a provocação de Assumção referente ao futebol, que é o único momento em que Kohan consegue separar alta cultura e cultura popular. "É minha zona de fuga, apesar de flagrar várias situações de possível análise antropológica. Costumo dizer que sou Boca Juniors, antes de ser escritor e professor", brincou sobre sua preferência clubística.
Rachel Duarte