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Ireno Jardim Mtr:5963
Vladimir Safatle disse que o país passou, nos últimos 10 anos, de um euforia coletiva ao que ele chamou de frustrações relativas
A 32ª Feira do Livro de Canoas abriu espaço, na noite de quarta-feira (29), para as ideias fortes e contundentes a respeito de política, comportamento e economia, de um dos mais respeitados filósofos e pensadores da atualidade, Vladimir Safatle.
Com mediação da premiada jornalista Letícia Duarte, as questões do Brasil atual deram a tônica da palestra de Satafle.Tendo como ponto de partida as manifestações de rua de 2013, Vladimir Safatle disse que o país passou, nos últimos 10 anos, de um euforia coletiva ao que ele chamou de "frustrações relativas". "Enfim, havíamos chegado ao nosso futuro, que seríamos a quinta economia do mundo, o legado de obras da Copa, os benefícios do pré-sal e tudo mais. Criou-se um sistema de expectativa muito forte, éramos ‘a bola da vez'", comentou o professor.
Ele ainda acrescentou que as revoluções nunca são feitas pelos mais fortes, mas pelos que se arriscam a entrar nesse processo, mas que não conseguem levar adiante. Para o filósofo e professor, vivemos num constante gabinete de crise desde 2008. "Somos bombardeados por uma série de crises. A situação de excepcionalidade é a situação normal. É muito mais fácil de governar quando você reduz o governo a um gabinete de crise. A austeridade não é um conceito econômico, mas um conceito moral. Vai se criando uma imagem de que se gastava antes de uma maneira absurda", completou Safatle. "O Estado socializa as perdas e privatiza os lucros e nossa revolta é bloqueada com um discurso de crise contínua", completou.
Letícia Duarte questionou Safatle sobre a afirmação de que a Nova República havia acabado, que não haveria mais condições de uma conciliação nacional. O filósofo disse que o Brasil sempre foi um país dividido, sem um discurso único, inclusive em sua história. "A Nova República foi uma construção para tentar colocar em marcha um processo de conciliação, só que deu errado. Vivemos um momento histórico que não sabemos ainda como definir. Mas é fato: o anterior já não existe mais", comentou. Vladimir foi mais longe, alcançando o modus operandis da economia nacional: "O país tem uma economia que já foi uma das maiores do mundo, mas temos uma classe de intocáveis. Não é que o Estado não tenha dinheiro, mas simplesmente não tributa quem deveria tributar. Criou-se uma casta de gestores de patrimônios, de especuladores. Assim se tem uma degradação de um sistema capitalista que escolhemos", completou.
''Mas um novo paradigma é possível'', diz Safatle. Isso está posto em seu novo trabalho, o livro "O Circuito dos Afetos", onde Safatle aponta que a sociedade não está apenas vinculada aos bens, mas também aos afetos. "Eles definem o campo do possível, do que sou capaz de perceber, de ver e sentir, é quem decide a dimensão do sensível, define como a sociedade reage, como ela atua, como ela se desdobra. A maneira como você é afetado é a maneira como você vai agir. A sociedade é uma guerra de todos contra todos. O poder do Estado é impedir que essa guerra aconteça. Governar hoje se transformou em gerir o medo", concluiu o escritor.
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