Carregando! Por favor aguarde...
A fila que se formou, quase uma hora antes do início da palestra, já denunciava que a noite com Jorge Mautner e Jards Macalé na 32ª Feira do Livro de Canoas ia ser memorável. E foi. Com mediação do jornalista Francisco Dalcol, o encontro com os dois ícones da contracultura, da resistência em diversas frentes e de um originalismo como poucos na arte brasileira lotou o Auditório Martha Medeiros. Fãs da dupla, de seus trabalhos individuais ou em parcerias, já ostentavam na chegada livros que já se esgotaram, capas de LPs raríssimos para os futuros autógrafos e CDs mais atuais.
Recebidos sob aplausos e gritaria, Jards se acomodou com seu violão num dos lados do palco. No outro, sem o seu habitual violino, Mautner já pegava o microfone antes mesmo do mediador iniciar a conversa. E foi Jorge Mautner quem acabou tomando a palavra para tentar contar, rapidamente, sua trajetória nas artes. Conhecendo e ouvindo Mautner, temos a impressão de que ele deveria ter, pelo menos, o dobro dos 75 anos que tem tamanhas voltas, idas e vindas, mil artes e projetos que continuam pipocando em sua mente. Em recente entrevista para o lançamento de “Kaos Total”, livro que traz suas letras e escritos e alguns inéditos, ele chegou a afirmar que gostaria, mesmo sendo realista, de poder viver 2 mil anos.
Ouvidos atentos
Sob o silêncio da plateia, o olhar atento de Macalé, o líder do Partido do Kaos, fundado em 1956, discorreu sobre praticamente tudo o que lhe cerca. Foi da mitologia grega aos deuses hindus, do xamanismo a neurociência, de apócrifos religiosos a tratados de Albert Einstein e outros gênios.
Mesmo sem o violino, com sua voz grave e potente, Mautner brindou o público com o repente “Sapo Cururu”, a clássica “Vampiro” e com a dobradinha com Caetano Veloso de “Eu Não Peço Desculpas”, inspirada numa conversa que teve com o pai quando tinha 14 anos.
Mautner monopilizou, e no melhor dos sentidos, a atenção de todos. Falou de período de exceção no país e de como a arte ajudou a libertar. “Vivíamos uma simultaneidade, que ainda vivemos. E a música sempre esteve na frente de todas as artes, mas foi o povo brasileiro que fez tudo”, disse Mautner enquanto ligava um assunto ao outro, uma lembrança a outra, um livro ou texto que leu sabe-se onde. “O Brasil nasceu de um segredo. E o mistério é para ser desvendado pelo amor”, completou.
“Jorge é um esclarecedor. É preciso ouvi-lo para entender o que é esse mundo. Ele é que tem os neurônios saltitantes”, disse Macalé após contar como se encontraram pela primeira vez, na Europa, no final dos anos 60. Antes, Macalé encheu o auditório com música, tocando “Dona Divergência”, sucesso de Lupicínio Rodrigues.
E Mautner não para. Tem livro novo saindo até o final do ano, já batizado de “Não há abismo que o Brasil não caiba”. Por fim, um recado: “Cada geração tem que conquistar a sua liberdade”.
Serviço de Atendimento ao Cidadão: 0800-5101234