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O DNA do Brasil, projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC), com apoio do Unilasalle, começou mais um ciclo nessa quarta-feira (20), às 19h30. Os debatedores do tema "50 Anos do Golpe Militar" foram o jornalista Rafael Guimaraens e o músico, escritor e arquiteto Cláudio Levitan.
Os dois convidados, que tiveram ações importantes nos tempos da ditadura, falaram sobre "os anos de chumbo" para estudantes, professores e profissionais de vários segmentos no Salão de Atos do Centro Universitário Unilassale. Eles também elogiaram a Prefeitura pela iniciativa.
Guimaraens abordou a relação do golpe militar com a mídia: "A ação dos veículos de comunicação foi um elemento muito importante na realização do golpe." Ainda, segundo ele, nos anos que se seguiram, os jornalistas e a imprensa tiveram papel muito importante na redemocratização do país.
"Mas em 1964 a grande imprensa se vinculou muito à ideia do golpe", explicou Guimaraens. Ele, inclusive, leu trechos de editoriais recentes dos jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo em que eles admitiram apoio ao golpe, reconhecendo o erro e pedindo desculpas à população. O jornalista também fez um relato da situação política da época.
Mídia protagonista
Rafael Guimaraens salientou que a mídia não apenas apoiou o golpe, mas atuou como protagonista. Os jovens, segundo ele, têm que ter essas informações para também compreenderem como tudo aconteceu. "Hoje, 50 anos depois, nem sempre vemos uma imprensa transparente, a serviço da cidadania e da informação. Ela ainda está concentrada em pequenos grupos, com muitos interesses econômicos", generalizou.
Para o debatedor, é preciso que as pessoas, quando estiverem lendo jornais, compreendam o interesse dos veículos de comunicação e pensem que tipos de outros interesses podem estar envolvidos com a mídia no Brasil. "Principalmente agora, no processo eleitoral, é importante que as pessoas tenham essa postura crítica em relação à mídia", pontuou Guimaraens.
Vítima do golpe
"Sou uma geração vítima do golpe, que foi castrada e perdeu direitos", afirmou Guimaraens. Mas ele conta que teve o privilégio de começar a trabalhar como jornalista na Cooperativa de Jornais, de Porto Alegre, que editava o Coojornal, um veículo independente, com profissionais democratizados e que "pôs luz às coisas que aconteciam no Brasil".
De acordo com ele, o Coojornal tratava de situações que não eram faladas à época: "Eu, muito jovem, tive a oportunidade de conviver com jornalistas mais experientes e participar do processo de redemocratização do Brasil. Avançamos muito, mas ainda temos que avançar mais e as imperfeições só podem ser corrigidas com mais democracia e ditadura nunca mais ", conclui Guimaraens.
Censura prévia
Conforme o escritor e músico Cláudio Levitan, que estava acompanhado do seu violão, uma das questões importantes, que a juventude atual não passou e os jovens de sua época viveram, foi a censura prévia. "Eu, como compositor, como músico, precisava, com 17, 18 anos, ir à Polícia Federal para mostrar as músicas que iria cantar em um bar, ou qualquer outro lugar, como no teatro da escola."
Conta Levitan que muitas de suas composições foram censuradas. "Esse tipo de repressão que nós sentíamos na pele, dentro da universidade e outros lugares, gerou muito medo." Ele acrescenta que os jovens estavam sempre vigiados pelo Estado.
"As coisas mais simples do mundo podiam se transformar em alvo da censura. E isso, hoje, é algo que os jovens não precisam passar. Todos têm liberdade de opinião. Acho que isso é um privilégio para a juventude atual." Conforme ele, essa oportunidade, atualmente, de trabalhar sem nenhuma censura é muito importante e deve ser valorizada.
Experiências
Entre as experiências pessoais nos anos de ditadura, Levitan cita que a música "O Tango da Mãe", que a dupla Tangos e Tragédias cantava em shows, foi censurada por causa de um verso que dizia "que a mãe se estrebuchava de ferida".
Ele também mencionou outras canções que fez e que foram censuradas. "A gente tinha que ludibriar e ao mesmo tempo proteger o trabalho da gente para conseguir fazer o que queria. Era muito difícil compreender o tipo de mentalidade dos censores. Foi um momento muito ruim de viver."
Censura de mercado
A situação atual, 50 anos depois do golpe, para Levitan, é que estamos dentro de outro mundo, que não tem censura prévia, mas existe a censura de mercado. "Essa estabelece um padrão do que deve e o que não deve tocar. Se a música vai vender, não vai vender. Isso cria também obstáculo para cultura. Está todo mundo fazendo música dançante e não canções reflexivas." No entanto, enfatiza, existe uma geração nova que está fazendo músicas muito boas usando meios alternativos como a Internet.
O que é o DNA do Brasil
Inaugurado em abril de 2013, o Projeto DNA do Brasil reúne em Canoas pessoas de reconhecido destaque no cenário cultural do Estado e do Brasil, entre artistas, intelectuais e gestores públicos. O objetivo é o debate sobre a identidade brasileira.
No ano passado, os enfoques dos palestrantes partiram da perspectiva cultural gaúcha. Neste ano, o tema abrange a história do país, com ênfase nos "50 anos do golpe militar".
O projeto envolve parceria com o Unilasalle, que no ano passado inseriu o projeto no curso de mestrado profissional: Memória Social e Bens Culturais da instituição. Nele, acadêmicos participam do módulo como parte integrante de sua formação. A atividade é sempre gratuita e aberta a toda comunidade.
Serviço de Atendimento ao Cidadão: 0800-5101234