Carregando! Por favor aguarde...
A já conhecida timidez de Luis Fernando Verissimo foi colocada em xeque na noite da última quinta-feira (25), na 31ª Feira do Livro de Canoas. Escritor homenageado e com o auditório que leva seu nome completamente lotado, inclusive na área externa onde havia um telão para transmissão, Verissimo se soltou (dentro do que é possível), para falar de literatura e de sua vida. Na plateia, as presenças do escritor cubano Leonardo Padura, que palestra hoje, a partir das 20h30 com Frei Betto, e sua esposa Lucía, o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, e a primeira-dama, Thais Pena.
A mediação do encontro ficou a cargo do professor Sergius Gonzaga, profundo conhecedor da literatura nacional e, em especial, da gaúcha. Brincando com a timidez de Verissimo, dizendo que isso é uma invenção e que na realidade o escritor fala pelos cotovelos, Sergius comentou que Verissimo não é um fabricante de beste-sellers, mas é assustadoramente até, lido e relido muitas vezes, um caso raro na crônica, já que ela, invariavelmente, trata de um recorte do momento. "A gente relê como se fizesse um trabalho arqueológico. Crônicas dos anos 70 parecem que foram escritas hoje", comentou o professor que comparou Verissimo a escritores como Victor Hugo e Balzac.
Bom-humor sempre
E a primeira fala de Verissimo não podia ser diferente, a não ser com bom-humor: "Depois desses elogios vou pedir uma outra cadeira no palco para o meu ego", arrancando muitas gargalhadas do público. O professor Sergius ainda comentou que escritor traduziu, como poucos, as grandes mudanças comportamentais que vivemos desde os 50, não de uma forma teórica ou sociológica, mas com um mundo de personagens. "Atrás de muitos dos seus relatos irônicos, divertidos, há uma fina melancolia, uma infelicidade leve, uma tristeza difusa, das coisas que passam, dos amores perdidos".
"A popularidade da crônica se deve ao fato dela não requerer muito tempo, alguns dizem que é um gênero tipicamente brasileiro ou, pelo menos, que o Brasil usa a crônica como nenhum outro país na literatura", comentou Luis Fernando Verissimo quando questionado por Sergius que poder era esse que esse gênero tem. "A gente se socorre um pouco pelo fato da crônica ser um gênero indefinido, isso dá uma certa liberdade a fazer o que ele quiser", completou.
Sergius Gonzaga, que também é amigo pessoal de Verissimo, comentou sobre a dificuldade de se produzir diariamente, às vezes para três quatro publicações, ao mesmo tempo, e que Verissimo, ainda por cima, tem um extremo domínio da linguagem, que é de primeira classe. "Olhando pra trás não sei como escrevia essa quantidade. Com o tempo foi mudando, hoje são três por semana. Mas Luis Fernando também foi provocado. Sergius disse que uma coisa que sempre lhe intrigou nas crônicas de Machado de Assis ou até de Carlos Drummond de Andrade, era um notável conhecimento das questões humanas, do afeto. "Fico imaginando que o escritor vivenciou os seus relatos. Minha pergunta é, tu viveu?". Com um sorriso de canto, Verissimo largou: "Posso contar minha vida sexual? Acho que não empolgaria ninguém. Apesar de ser uma pessoa tímida, eu tive lá minhas experiências", sendo muito aplaudido entre mais sonoras risadas.
Música e livros
Luis Fernando Verissimo chegou tardiamente às letras. Sendo filho de Erico Verissimo, era de se pensar que, em pouco tempo, estaria na mesma seara que o pai. Mas não foi bem assim. Primeiro veio a música. "Na nossa segunda ida aos Estados Unidos para morar, eu tinha uns 16 anos, queria tocar trompete como meu ídolo Louis Armstrong, mas acabei indo parar no saxofone. Só queria poder brincar de jazzista. Quando voltei ao Brasil comecei a tocar em alguns conjuntos de estudantes e hoje tenho o Jazz 6", comentou o escritor que disse que, até os 30 anos, não tinha a menor noção de que ia escrever. "Comecei como copydesk em jornal e logo depois já tinha uma coluna e dai não parei mais", concluiu.
Por falar em parar, ele que está perto de completar 80 anos, pensa em diminuir ainda mais o ritmo. "Algumas coisas são importantes na minha biografia, ter ido aos EUA, com 7 anos, na época da II Guerra, isso marcou muito, ate o estilo, influenciado pela literatura americana, cinema, música. Depois com 16 anos, época da Guerra Fria, vem dai um pouco do interesse pela política. Ter entrado no jornalismo, meu casamento com Lúcia, nascimento dos meus filhos. Vou fazer 80 anos em 2016, to pensando em parar um pouco", com um sorriso de quem já deveria pensar numa crônica.
Após a palestra, Luis Fernando Verissimo atendeu uma gigantesca fila de autógrafos, por quase duas horas, sem se mostrar cansado, extremamente atencioso e feliz por essa passagem pela 31ª Feira do Livro de Canoas.
Serviço de Atendimento ao Cidadão: 0800-5101234