Carregando! Por favor aguarde...
Ireno Jardim Matr:5963
Leonardo Padura e Frei Betto foram as grandes atrações do final da Feira do Livro
O Auditório Luis Fernando Verissimo na 31ª Feira do Livro de Canoas ficou, mais uma vez, completamente lotado na noite de sexta-feira (26) para o público conferir o encontro entre os escritores Leonardo Padura e Frei Betto, que foi mediado pela jornalista Cláudia Laitano. Antes do início da conversa, o secretário municipal da Cultura, Luciano Alabarse, saudou o público e falou um pouco sobre esta edição da feira. “Temos uma Feira do Livro cada vez mais focada nos livros e nos autores, como tem que ser, uma feira calcada na inteligência”.
O prefeito Jairo Jorge também aproveitou para agradecer a presença de todos e, na frente do escritor Luis Fernando Verissimo, que encantou a todos no encontro do dia 25, reafirmou o seu convite para que o grupo Jazz 6, onde Verissimo é o saxofonista, seja uma das atrações do 5º Canoas Jazz. “Leonardo Padura encantou o mundo ao traduzir a grandeza e as tragédias que caracterizam o século XX. Frei Betto é um constante fonte de inspiração a todos nós. Com isso, nós queremos trazer não só os escritores de renome, mas também valorizar os escritores de Canoas. Essa é uma feira que quer agregar. O livro e o debate são necessários para romper as barreiras sociais”, completou o prefeito.
Amizade e posições fortes
A relação de amizade e livros entre Frei Betto e Leonardo Padura vem de longa data. “Em Cuba, houve períodos de muita luta e o sistema socialista, de certa forma, ia contra os direitos humanos. Foi quando me chegou o livro “Fidel e a Religião”, de Frei Betto”, comentou Padura que também acredita que o livro do Frei ajudou a mudar muitas coisas em Cuba, sendo o primeiro a publicar as opiniões sobre religião, em especial a Igreja Católica, de um chefe de estado comunista e no poder. Padura entao citou J. D. Salinger que disse que “era muito melhor ler os escritores que estão vivos”, para falar de Frei Betto. Os dois dizem que possuem afinidades éticas, mais que literárias ou de filosofia. Padura, é um ateu e Frei Betto, um religioso de fortes convicções sociais, conseguem dialogar porque estão preocupados unicamente com a verdade. “Betto ilumina a realidade com sua literatura. Praticamos a verdade”, sentenciou Padura.
A mediadora Cláudia Laitano também colocou em debate a recente decisão da corte norte-americana em aceitar, em todo o território dos EUA, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Hoje não há impedimento de preferência sexual nem de crença religiosa em Cuba. Hoje todo cubano ou tem um crucifixo ou um colar de santeria (crença semelhante ao candomblé), ou ou dois ao mesmo tempo. Ainda temos que resolver socialmente muitos problemas que são próprios da cultura cubana”, disse Padura. “Estamos num país onde não há discriminação racial oficialmente, mas lembremos que somos um país de matriz africana”, completou.
Frei Betto é mais contundente sobre o assunto. “O Espírito Santo de vez em quando “baixa” em Roma”, se referindo ao fato de que Bento XVI já havia retirado da doutrina católica que a homossexualidade se tratava de um desvio moral. “O papa Francisco, um gênio, abriu mais os caminhos com aquela declaração, após sua passagem pelo Brasil, sobre os respeito aos gays. Agora, a Igreja está tocando num tema que não era mencionado desde o século XVI, que é a sexualidade”, disse Frei Betto. “Isso de que o homem só deve ter relações sexuais para procriar não é teológico, é zoológico”, brincou o religioso que completou dizendo que, mesmo assim, já se sabe que alguns animais têm relações por prazer, assim como o homem. “A homofobia está muito forte no Brasil, vamos levar algum tempo para que isso mude”, concluiu.
Politica e livros
Frei Betto já foi dezenas de vezes a Cuba, trabalhou por lá e cita o país em inúmeros trabalhos e se refere ao livro de Leonardo Padura, “O Homem que Amava os Cachorros” (Editora Boitempo), como “ o melhor retrato do que foi o socialismo do seculo XX. Ressuscitou Trotski de maneira brilhante, assim como seu assassino, Ramón Mercader”. E o Frei Betto foi mais longe: “Nossa luta é contra o memorícidio, contra a falta de visão histórica. Precisamos resgatar o que foi reamente a Ditadura Militar. Me assusta ver gente pedindo a volta dela, eles não sabem o que foi aquele período”, diz Frei Betto.
Cláudia Laitano questionou Leonardo Padura se seus livros já nasciam com a ambição de ser um romance. O cubano responde com uma frase daquelas para não se esquecer jamais: “A embriaguez histórica é fundamental para se escrever um livro dessa natureza”. E completou: “Se vou escrever um livro para ter impacto, como o caso de “O Homem que Amava os Cachorros”, ou sou um tonto ou sou um cínico”, se referindo que a maneira como suas obras são recebidas é completamente imprevisível.
“Se este livro fosse escrito por um cubano de Miami seria outro livro. Viver em Cuba deu a forma definitiva desta obra. Quando terminei achei que não seria publicado em Cuba. No dia que apresentamos o livro na Feira de Havana, estávamos presenciando um milagre”, concluiu Padura que, no sábado, ainda teve um novo encontro com Cláudia no Estande da RBS onde novamente falou de livros, política e sua vida em Cuba e adiantou que, em setembro ou outubro, seu novo livro, “Hereges”, já estará no Brasil e um retorno ao país está sendo agendado também para o lançamento.
Serviço de Atendimento ao Cidadão: 0800-5101234